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O LUGAR DO HISTORICISMO NA HERMENÊUTICA

Por Magno Castro 

Ao se refletir sobre a hermenêutica, se faz necessário antepor uma consideração, mesmo que genérica e aberta, sobre o seu papel diante das questões éticas e políticas na vida cotidiana. Pode-se afirmar que a hermenêutica se constitui em uma reflexão filosófica interpretativa ou compreensiva das ações e dos pensamentos humanos. Para tanto, as ações e os pensamentos humanos se apresentam como objetos da hermenêutica carregados de sentidos, múltiplos em suas formas latentes e imanentes. A partir do que ora foi exposto é imprescindível analisar, sob uma ótica oposta, a forma negligente que Hans-Georg Gadamer trata o historicismo em sua filosofia e enunciar que a sua percepção de uma contradição lógica encerra, com presteza, a remição hermenêutica.

É notável que, ao atribuir características ou princípios alheios ao historicismo, as críticas de Gadamer tentam induzir a uma conclusão errônea sobre a sua real importância. As assertivas ‘todo conhecimento é historicamente condicionado’ e ‘este conhecimento vale incondicionalmente’ são situados no historicismo em planos diferentes. É fato que a própria hermenêutica, ao se recorrer a o contexto, seja de um texto ou de um discurso em exame, deixa entrever os condicionamentos históricos que se limitam com os significados e sentidos. Na compreensão de qualquer ação ou pensamento humanos, os condicionamentos históricos estão em uma fronteira de conflito entre a realidade socialmente construída e as disputas de sentidos que geram a necessidade de se distinguir o que se apresenta latente ou imanente. A imagem de uma fronteira de conflito de sentidos destoa a proposição de Gadamer que dispõe sobre o mesmo plano os condicionamentos históricos e que estes são incondicionalmente válidos para tudo se compreender. É inerente a realidade, por ser construída socialmente e filha de seu momento temporal, não pura simplesmente a sucessão de “finitudes”, mas a sucessão de suas influências.

Nenhuma análise filosófica, seja qual for sua perspectiva, está isenta de um cenário de fundo, de um contexto. Talvez apenas neste ponto o historicismo se iguale às outras vertentes, embora não reconheçam. Entretanto, o historicismo afirma que nenhum significado está além daquele que os homens, em seus vários estágios de desenvolvimento, lhe conferem.

Assim, como imaginar a questão dos sentidos e significados a - historicamente ou desconsiderar as influências que formam o seu contexto? Gadamer o faz sem pudor. O historicismo não se exclui da disputa de sentidos e significados. Ao contrário, a ressalta e desta maneira encontra o seu lugar na filosofia hermenêutica. A crítica de que o condicionamento histórico do conhecimento é válido incondicionalmente não encerra uma contradição lógica. Situados no mesmo plano por Gadamer, somente demonstram que a crítica é feita utilizando elementos ou princípios estranhos ao historicismo.

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