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Teoria Ética III: A Ética do Estoicismo e Epicurismo na Grécia Antiga

O EPICURISMO COMO ÉTICA EUDEMONÍSTICA


Encontra-se na filosofia de Epicuro, como em todas as filosofias da Antiguidade, um propósito de uma vida ética eudemonística[1]. A amplitude e a profundidade que os assuntos tratados em A carta sobre a felicidade, destinada a Meneceu, ultrapassam os limites de seu primeiro leitor e ressoam, de alguma maneira, nas reflexões do homem que busca a felicidade. A partir deste texto se esboçará um itinerário para compreender o epicurismo como ética eudemonística. Para tal, será útil uma subdivisão simplificada da filosofia de Epicuro segundo Diógenes Laércio em canônica, física e por fim convergir em seu código ético. (FORSCHER, 2003).

“Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.”

Canônica é uma palavra que vem do grego kanôn, que significa aquilo que representa um meio confiável para se verificar se algo é reto, correto ou adequado. Para Epicuro, a canônica é o meio de impedir o julgamento incorreto do mundo real. A retabilidade deve ser conforme a veracidade do objeto. O epicurismo utiliza-se de três critérios para o conhecimento da realidade que deve assegurar a veracidade ou a correção do próprio instrumento da avaliação. Segundo Maximilian Forschner, Epicuro ofereceu em seu cânon além dos três critérios de verdade (percepção, pré-noção e sensações), um quarto que teria sido acrescentado por seus discípulos: a tensão da razão que produz uma impressão (fantastikaì epibolaì tês dianoías).

O primeiro critério é conhecido como percepção. A afirmação principal de Epicuro é de que todas as percepções são verdadeiras. Isto significa que todas as impressões dos sentidos têm causas reais no mundo exterior e que de alguma forma proporciona acesso a ele. Portanto, a razão deve desconfiar-se de si mesma abstendo-se de seus acréscimos deixando fruir os sentidos.

A percepção é um meio verdadeiro por comportar-se de maneira receptiva, pois não se move por si mesma e nem por qualquer outra coisa que possa acrescentar ou lhe tirar algo do conteúdo da percepção. E de nenhum outro modo não poderia deixar de proporcionar a veracidade da realidade.

Confiar apenas naquilo que os sentidos percebem, não estaria o homem passível de inúmeros erros e julgamentos falhos? Os erros e falhas devem-se unicamente aquilo que a razão desnecessariamente adicionou ao pensamento: a importância que se deposita e as expectativas formuladas conduzem a isso. Além do mais, a pura percepção não pode ser contestada por outra do mesmo tipo nem por outra de tipo contrário, tampouco a razão está em condições de refutá-las.

O segundo critério de verdade são as pré-noções que se definem como “memória do que se manifestou com freqüência a partir de fora; elas se formam com a base da capacidade da preservação de impressões no espírito no decurso das próprias experiências e possibilitam a classficação de um objeto como um caso do geral”. Epicuro demonstra que toda pré-noção foi compreendida anteriormente a um determinado compreender e que assume neste compreender a função de um critério possibilitador de conhecimento (Ibid. p. 36), Afinal, quais pré-noções são autênticas? Para Epicuro, são aquelas que surgem por primeiro, involuntariamente e com evidência por ocasião da pronúncia de uma simples palavra, com as quais a expressão da linguagem está vinculada de modo natural; seu conteúdo é evidente; sua relação com real está assegurada e são verdadeiras a medida que correspondem a uma definição do real.

O terceiro critério é a sensação (páthos). O epicurismo possui uma concepção naturalista de que a natureza humana foi provisionada com este critério para que no seu agir antes de qualquer reflexão ou escolha, busca-se o prazer e evita-se a dor, avalia-se corretamente algo como bom ou mau, como algo a ser evitado ou almejado. Assim Epicuro adverte a Meneceu.

O conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.

A diferenciação e a orientação na vida sobre o que é bom e mau ou o que é prazer e dor se encontram no sentir natural, involuntário, pré-racional; na qual a razão somente é considerada posterior e subserviente neste processo, útil apenas no mero verificar do cálculo onde se pode auferir prazer maior.

“Nega o destino, apresentado por alguns como senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto a nossa vontade é livre”.

Essa máxima de Epicuro representa ricamente a sua visão de mundo que se contextualiza materialmente. O universo, os deuses, a vida, a morte, a razão, o espírito, o prazer, o dor e mesmo a felicidade são elementos que explica a partir de sua visão de realidade: “(1) que nada surge do nada e (2) nada se desfaz no nada, (3) que o todo sempre foi e sempre será como o é agora, e (4) que o universo é composto por corpos e pelo vazio” (Idid. p. 40).

Enquanto as três primeiras sentenças se ocupam com o surgir e desfazer-se, com a transformação do existente no quadro do todo e com a rejeição da idéia de que o próprio universo possa surgir, desfazer-se ou transformar-se, quarta sentença designa aquilo que compõe o universo: corpos e vazio[2] (Idid. p. 40).

A pretensão de Epicuro é um estudo cientifico, na medida do possível, da natureza. Seu objetivo o esclarecimento e a libertação do homem de preocupações vãs e aflições irracionais. Por isso, as idéias de destino, de forças naturais e as representações sociais dos próprios deuses são questionadas na carta a Meneceu. Conseguintemente, todo qualquer acontecimento é compreensível e explicado na medida em que é real; fruto apenas da ação humana ou da natureza. Os deuses, porém existem, mas vivem uma existência de apania e de ataraxia[3]. Considerando tal materialismo, ensina sobre o desvio espontâneo dos átomos para explicar tanto a possibilidade do surgimento de mundos como a possibilidade da liberdade do querer[4]. Desvendou isso para que os homens tivessem uma consciência livre de medos e superstições. Os medos e as superstições humanas são distorções das percepções da natureza e uma compreensão errônea dos deuses.

“Medita, pois, todas estas coisas e muitas outras congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com os teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viveras como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais”.

A canônica e a física convergem para a existência de uma ética epicurista. O viver bem com base no prazer, a canônica como método para se alcançar esse prazer, a física o seu sistema de visão de universo são reflexões que dão segurança ao homem quanto às vicissitudes presentes e incertezas vindouras.

A filosofia epicurista não prescinde da prática das virtudes ficando no conhecimento teorético. A vida ética e o prazer, como condição de felicidade, se tornam possíveis quando “a prudência, ou sabedoria prática, faculdade do bom cálculo hedonístico, é dita ‘princípio e o bem supremo’” (MORAES, 2006. p. 18). O fim último do homem é alcançar um estado livre de necessidade e fadiga (aponia) e de intranqüilidade e perturbações psíquicas (ataraxia), possível somente em companhia dos amigos. Desta maneira, o epicurismo une em si altruísmo, que o esvazia do egocentrismo, e utilitarismo, conforme afirma Epicuro: “Toda amizade deve ser escolhida por si mesma. Entretanto, ela tem seu começo no proveito”.

Como viver então prazerosamente, prudentemente, belamente e justamente?

Epicuro indica o método usual do sábio: meditar sobre o que é necessário e natural, necessário e não-natural e não necessário e não-natural. Os critérios de verdade assentados nas percepções prazerosas dos sentidos e uma visão materialista que desmistifica o destino e os deuses neste método são elementos essenciais da ética epicurista que se manifesta na vida feliz e amizade com seu semelhante.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. EPICURO. Carta sobre a felicidade (a Meneceu). Tradução e apresentação. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
2. HADOT, Pierre. O Que e a filosofia antiga? São Paulo: Loyola, 1999. 423p.
3. MORAES, João Quartim de. Epicuro: máximas principais. Campinas: IFCH/UNICAMP, 2006.
4. FORSCHNER, Maximilian. Epicuro: esclarecimento e serenidade. In: GRAESER, Andreas; ERLER, Michael. Do helenismo ate a Antiguidade tardia: uma introdução. São Leopoldo (RS): UNISINOS, 2003. 304p. (Filósofos da Antiguidade, 2).

[1] No sentido de viver bem (eu zên) ou no de “ser bem-aventurado” (makários zên).
[2] Corpo (sômata) é todo que e atestado pela percepção, composto de estruturas de átomos fisicamente indivisíveis que se movimentam constante e diferentemente devido a relação entre massa e velocidade. Já o vazio (to kenón) é um pressuposto do que se é intangível, lugar de ser dos corpos e o espaço de seu movimento (FORSCHER, 2003).
[3] Os deuses são considerados eternos e bem-aventurados, dotados de virtudes e de sabedoria e despidos de toda fraqueza e paixões humanas, dignos, portanto, da contemplação e imitação dos homens.
[4] Para explicar o surgimento dos mundos, Epicuro vê-se obrigado a postular um desvio espontâneo mínimo, singular ou ocasional, de um átomo ou diversos átomos de seu curso vertical: somente assim pode suceder a colisão e o entrelaçamento de átomos e assim o surgimento de um mundo (Idid. p. 43).

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