Pular para o conteúdo principal

Teoria Ética I: A Ética Socrático–Platônica

A JUSTIÇA COMO VIRTUDE E A FORMAÇÃO DA PÓLIS

Nos diálogos dos livros II e V de A República há uma unidade explicativa sobre qual é a natureza da justiça e qual a sua origem e a formação de uma pólis. Esta é idealizada por Sócrates a fim de demonstrar a viabilidade da vida em sociedade, enquanto os seus interlocutores se posicionam realisticamente.

A discussão se inicia no Livro II sobre o que é a virtude da verdadeira justiça. Glauco ansioso pelo conhecimento da verdade retoma a partir das palavras de Trasímaco sobre o que se afirma ser justiça e qual a sua origem; que quem a pratica a faz por imposição e, dessa maneira, importa aparentar ser justo sem sê-lo de fato. Percebe que a essência da origem da justiça está no estabelecimento social de leis para normatizar o que se designa como legal e justo conforme regem essas próprias leis.

As situações cotidianas tecem as oportunidades de os cidadãos se colocarem eticamente. A partir disso, Glauco propõe situações para serem analisadas na qual o bem e o mal são escolhas possíveis e seus efeitos apresentados realisticamente. O mito de Giges demonstra esse argumento sobre qual é o maior bem e a melhor virtude que a humanidade sempre escolhe: ficar impune das injustiças que se pratica e ainda aparentar ser justo.

As ações humanas se constituiriam justas pela simples aparência, indiferente aos motivos que as ocasionaram e as conseqüências que delas derivariam. Pois, ninguém é justo por sua vontade, mas forçado, por entender que a justiça não é um bem para si, individualmente, uma vez que, quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiça, comete-as.

Segundo Sócrates, o conhecimento do bem seria suficiente para agir como se deve. O papel da educação na formação do cidadão é de suma importância. Constata que o supra-sumo da injustiça é parecer justo sem ser, e a partir disso tirar proveito, nada mais é que o resultado de uma educação grega alicerçada sob as alegorias dos poemas homéricos e a competividade individualística. O bem individual está apartado do bem comum. Segundo, MacIntyre (2001) a literatura era a parte fundamental dos escritos morais dessas sociedades posteriores, além do mais, a intenção de Platão, em A República, é de expulsar da pólis o legado homérico e de apresentar sua própria teoria das virtudes. Fazer o bem aos amigos e o mal aos inimigos é um conceito de justiça que deve ser desconsiderado por não ser condizente com a realidade de uma pólis que se propõe a democracia. Em contraposição, a virtude conformada a concepção homérica se torna desejável apenas pela reputação, honrarias, presentes, dela derivados e não por possui sentido em si mesma.

Mais afinal, como demonstrar que a justiça vale mais do que a injustiça? Quais os efeitos que cada uma dessas virtudes produz por si mesma sejam despercebidas ou não a deuses e homens? Ainda nos diálogos do Livro II, Sócrates afirma que as respostas para tais questões sobre o que é justo ou injusto são encontradas na indagação da sua natureza na pólis. Após isso, as indagações são feitas ao indivíduo. Imaginar a formação de uma cidade-estado ideal e complexa é a melhor maneira que o filósofo se dispõe a explicar sobre a natureza das virtudes dos cidadãos como também a solução dos seus vícios. Assim inicia no Livro V.

A constatação de que o ser humano não é auto-suficiente torna-se importante para a fundação da pólis onde todos são necessários mutuamente. Cada qual, em sua função, tem a oportunidade de exercer as suas virtudes. Entende-se virtude como um conceito político, pois o homem virtuoso é inseparável da tese platônica de cidadão virtuoso.

A virtude se constitui, portanto, a ação humana em uma pólis ideal como uma promulgação daquilo que lhe é natural: a vida feliz e justa comum a todos. Por isso, Sócrates indaga aos debatedores: Teremos algum mal maior para a cidade do que aquele que a dilacera e a torna múltipla, em vez de uma? E qual deve ser a medida de uma pessoa justa? A resposta platônica será o filósofo governante, pois este possui a razão do que seja o bem comum. Portanto, a contribuição que Platão traz a filosofia ética e política está na ligação que entende entre virtude e a vida pública, cujo princípio é que cada cidadão execute apropriadamente sua tarefa na pólis (ROYER, 2006).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
· MACINTYRE, Alasdair. Depois da virtude: um estudo em teoria moral. Bauru: EDUSC, 2001. 478p. Jussara Simões. Revisão: Helder Buenos Aires de Carvalho. Bauru, SP: EDUSP. 2001.
· Platão. A República. 8. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1949. 513p. ROYER, Aloysius et. Al. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2006.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Teoria Ética IV: S.Tomás de Aquino e a Ética Cristã

A ÉTICA EM SÃO TOMÁS DE AQUINO: DO ÚLTIMO FIM DO HOMEM À COMPREENSÃO DAS SUAS PAIXÕES E VIRTUDES [1] Com a intenção de demonstrar como a consideração do último fim [2] do homem, S. Tomás de Aquino analisa as ações humanas e explica o que se encontra no seu interior, vícios ou virtudes, na alma. Percebe-se que no volume 3, seção I, parte II da sua Suma Teológica é possível extrair sua metodologia sobre o conteúdo da ética [3] , o que para ele é a mesma vida cristã. As ações humanas, portanto, deverão está pautada na consideração do fim último da bem-aventurança, para que a partir disso os atos sejam de natureza, estrutura e dinamismo na escolha do bem e na rejeição do que é mal. DO FIM ÚLTIMO: A BEM-AVENTURANÇA Para S. Tomás de Aquino, o homem tende a um fim último e natural: a beatitude eterna no seio de Deus. Apesar disso, não desconsidera a felicidade terrena, ainda no mundo secular. Mas de outro modo não poderia deixar sê-la incompleta, imperfeita. Então, qual o princípio fundante ...

Aula da Saudade dos Formandos em Pedagogia UESPI/Altos - PI

UESPI: Aula da Saudade para Formandos em Pedagogia foi marcada por choro, emoção e muita gargalhada Na última quarta-feira (25) foi realizada a Aula da Saudade para os Formandos do Curso de Lincenciatura Plena em Pedagogia da UESPI de Altos - Núcleo Roberto Raulino. A festa para Turma "Semeando Sonhos e Edificando Novos Saberes" teve todos os ingredientes de um grande show: brilho, gente bonita, boa música e alegria que contagia. O evento foi marcado por choro, emoção e muita gargalhada, especialmente no momento em que Antonia Regina, Coordenadora do Curso de Pedagogia, ministrava a aula. Ela relembrou as características e os episódios marcantes de cada formando. Além das coordenadoras do núcleo, Antonia Clemilda e Antonia Regina, estiveram presentes as Mestres Ana Isabel, Fátima Pinho, Francisca das Chagas (Kinha), Francisca Gelma, o Mestre Magno Júnior e o funcionário José Maria, todos homenageados naquela noite. Regados a drinks, cajuinas, refrigerantes e salgado...

Cursistas de Educação Física do polo de Currais produzem Podcasts como atividade curricular

O uso de Podcasts é um dos mais novos projetos digitais da turma de Educação Física do polo de Currais. A produção dos programas foi realizada como atividade da disciplina de Sociologia da Educação, ministrada pelo professor formador Magno Castro. O desafio era produzir um podcast e um resumo simples por grupo. A produção ocorreu durante o mês de fevereiro e os alunos apresentaram no início de março remotamente através da plataforma Google Meet.   Esse tipo de conteúdo em áudio que pode ser escutado a qualquer momento e em qualquer lugar, modificou a maneira de consumir informações e dessa forma a turma de Educação Física aproveitou para abordar por meio desse canal os temas trabalhados na área da Educação Física e da Sociologia. Organizaram-se em 7 grupos com 5 pessoas e cada grupo produziu um podcast de 10 a 15 minutos com o resumo de cada tema escolhido.   O professor Magno justificou a relevância da atividade para a formação dos discentes. “A Educação Física é um c...